sábado , 19 agosto 2017
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Desastre ambiental no Rio Doce: Quanto VALE uma vida?

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Todos sabemos que a instalação de indústrias e multinacionais nas cidades traz desenvolvimento, gera empregos e impostos, e impulsiona o potencial econômico do Estado. Entretanto, a exploração dos recursos naturais pelos setores da economia além de gerar todos esses benefícios, causa também um preço e muitas vezes ele é bem alto.

Segundo estudo feito em 2014 pelo Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, os 105 territórios em 22 estados brasileiros que sofreram impactos nos últimos três anos pela mineração, confirmaram que a extração de minerais é uma atividade extremamente impactante nas regiões onde está instalada.

“Ela gera um conjunto de consequências ambientais e socioeconômicas”, afirma o pesquisador do Cetem, Francisco Rego Chaves Fernandes. Impactos ambientais com destaque para poluição da água, assoreamento dos rios, desmatamento, erosão, mudança da paisagem do solo, danos à flora e à fauna.

O estudo aponta ainda que um dos estados com maiores problemas é Minas Gerais, “porque produz substâncias minerais metálicas, como ouro, zinco, chumbo, minério de ferro, bauxita, que é o minério do alumínio, cujos problemas são mais complicados”.

Nosso Fala Morador de hoje é sobre este assunto. Com o rompimento da barragem em Mariana-MG, todos os danos ambientais causados no Rio Doce e todas as vidas perdidas, além da lama que chegou ao nosso Estado, o tema volta a ganhar projeção e queremos saber: Quanto VALE uma vida?

Afinal, é possível gerar desenvolvimento sem poluir, degradar ou matar? Ou o desenvolvimento sustentável, onde o respeito à vida e ao meio ambiente são mantidos, não passaria de Utopia?

Segundo a moradora Scheila Bezerra, a questão da conscientização da população depende de uma educação ambiental e preocupação com o meio ambiente. “Se não se tem preocupação com o meio ambiente e uma educação que inclua a ambiental não se fará um povo consciente. Campanha de prevenção só aparece quando se está em estado crítico. As leis são a favor da exploração com monitoramento fraco ou encoberto. A população está à mercê dessa politicagem que explora e não investe em cálculo dos danos. Quem morre já morreu. Virá a página e acabou”, afirma a moradora.

Entenda sobre o rompimento da barragem em Mariana

No dia 05 de novembro deste ano uma das barragens de rejeitos de minério da empresa Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP, se rompeu em Mariana (MG) causando assim o maior desastre ambiental no Brasil.

O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, atingiu vários distritos de Mariana como Bento Rodrigues, que foi o mais atingido. Além disso, sete mortos já foram identificados e quatro corpos aguardam identificação; e doze pessoas estão desaparecidas.

O mar de lama com os rejeitos causaram muitos estragos ao longo do Rio Doce, rio que liga os estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

De acordo com o Governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, a mineradora responsável pelo rompimento terá que arcar com os custos dos danos causados a cidades e ao Rio Doce. “O estado já está ajudando. O estado fez toda a parte emergencial, a Defesa Civil estadual trabalhou junto com as defesas municipais, os órgãos municipais ao longo da calha do rio [Doce] todo de forma muito efetiva. Agora, a questão de valor, toda a responsabilidade pelo desastre é da empresa, é da Samarco. Então, ela que vai arcar com esse prejuízo, digamos assim”, disse o governador.

A Samarco, após o ocorrido divulgou uma nota à imprensa informando o comprometimento da empresa em atender as pessoas prejudicadas pela lama e também diminuir os danos causados ao meio ambiente. Confira a nota na integra:

A Samarco informa que houve um rompimento de sua barragem de rejeitos, denominada Fundão, localizada na unidade de Germano, nos municípios de Ouro Preto e Mariana (MG). A organização está mobilizando todos os esforços para priorizar o atendimento às pessoas e a mitigação de danos ao meio ambiente. As autoridades foram devidamente informadas e as equipes responsáveis já estão no local prestando assistência. Não é possível, neste momento, confirmar as causas e extensão do ocorrido, bem como a existência de vítimas. Por questão de segurança, a Samarco reitera a importância de que não haja deslocamentos de pessoas para o local do ocorrido, exceto as equipes envolvidas no atendimento de emergência.

Lama chega ao Espírito Santo

Esta semana a lama chegou no Espírito Santo, nos municípios de Baixo Guandu e Colatina e mudou completamente a paisagem desses lugares.

Em Baixo Guandu, antes da chegada da lama, o prefeito da cidade Neto Barros decretou estado de calamidade pública. No comunicado, publicado no site da prefeitura, informava que a situação, já afetada pela estiagem, seria agravada com a chegada da lama. Além disso, em decreto em vigor, o prefeito proíbiu todas e quaisquer condutas abusivas que contribuíam para o desperdício de água no município. “Estão proibidas desde lavagem de carros e calçadas até as captações superficiais de água destinadas a todo e qualquer uso, exceto para consumo humano”, diz o documento.

Após a chegada da lama, o abastecimento de água em Baixo Guandu foi suspenso, mas a cidade pode usar o Rio Guandu, rio que fica próximo a cidade para abastecimento. “Temos uma central de bombas para captar água do Rio Doce para a Estação de Tratamento. Agora vamos captar do Rio Guandu. Já mexemos na barragem. No começo vai ser algo paliativo, mas depois será definitivo”, afirmou o prefeito.

Em Colatina, antes de sua chegada, o município já enfrentava um período de seca e o rio estava abaixo do nível normal, onde era possível ver os bancos de areia.

Após a chegada da lama, a cidade teve que adotar um plano de emergência para atender a todos os moradores, já que não há um rio próximo a cidade e depende do Rio Doce para abastecimento.

Na madrugada do dia 18, a captação de água foi suspensa. A população já sabendo desta medida teve que armazenar água em vários locais dentro de casa, como em uma caixa extra.

Além disso, a prefeitura da cidade e o governo do Estado do Espírito Santo adotaram as seguintes medidas para abastecimento: a presença de carros-pipa; a instalação, feita pelo exército, de reservatórios de 10 mil litros nos bairros; a perfuração de seis poços para captar a água que fica entre as rochas, feita pela Samarco, e as doações de água vindas de outras cidades.

Rejeitos de Lama pode chegar ao litoral de Vitória

Após causar estragos e destruição ambiental no Estado de Minas Gerais e chegar ao Espírito Santo, a lama de rejeitos da Samarco continua percorrendo o Rio Doce e está em direção a região de Regência em Linhares. De acordo com Técnicos da Secretaria de Meio Ambiente de Vitória, há grande possibilidade desta lama chegar na capital, o que irá ameaçar toda a cadeia marinha e também os frequentadores da praia.

“A lama tem um comportamento diferente, mais lento, depende da vazão e da velocidade, mas atingirá a costa por conta do vento predominante em nossa região, que é o nordeste. Ao atingir Linhares, a tendência é que chegue em Vitória”, disse o oceanógrafo Paulo Rodrigues, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que atua no Projeto Tamar.

Com isso, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente corre contra o tempo para avaliar o impacto dessa catástrofe ambiental e reuniu sua equipe técnica nesta quinta (19) para promover uma discussão entre secretários municipais de Meio Ambiente das cidades costeiras do Espírito Santo que podem ser afetadas com os rejeitos da barragem mineira.

“É hora de nos unirmos para traçar ações a partir da gravidade que isso representa para nossas cidades. Proponho a criação de um fórum permanente de discussão sobre o tema, lembrou o secretário de Meio Ambiente de Vitória, Luiz Emanuel Zouain.

Uma das medidas tomadas pela Samarco para preservar a fauna e flora dessa região foi a instalação de nove mil metros de barreiras de contenção na foz do Rio Doce. De acordo com a empresa, as barreiras de contenção são feitas de lona 100% impermeável e fixadas no fundo do rio, próximo às duas margens. A previsão é de que o trabalho, realizado por especialistas contratados pela Samarco, seja concluído nos próximos dias. Outra medida foi a operação Arca de Noé, que tinha como objetivo resgatar os peixes e levar para os tanques do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e, em Regência, para tanques do projeto Tamar, para que, no futuro, elas sejam devolvidas à natureza.

A prefeitura de Vitória preocupada com os possíveis impactos que podem ser provocados na capital capixaba, encaminhou ofícios a Vale e à Samarco solicitando esclarecimentos e ações para este desastre ecológico. “A Prefeitura está acompanhando de perto toda possibilidade de impacto da tragédia por ocasião do rompimento da barragem no ecossistema marinho. Por isso, solicitamos informações às empresas sobre avaliação da possibilidade de agressão ao nosso ecossistema, com um relatório de ações preventivas que estejam sendo feitas, e também já começamos a monitorar a vida marinha para detectar todas as possíveis alterações”, disse o prefeito Luciano Rezende.

Notificações e multas

A mineradora Samarco foi notificada nesta quarta-feira (18) pela Subsecretaria Estadual de Fiscalização de Meio Ambiente, da multa no valor de R$ 112 milhões pelos danos ambientais causados pelo rompimento da Barragem Fundão, no dia 5 de novembro. A Samarco confirmou o recebimento da notificação. A empresa tem o prazo de até 20 dias do recebimento do auto de infração para pagar a multa ou apresentar a defesa.

De acordo com a notificação, a multa é pela poluição e degradação ambiental causada pelo rompimento da barragem da Samarco. O documento cita ainda os danos causados aos recursos hídricos, à saúde, à segurança e ao bem-estar da população prejudicada.

Além da multa estipulada pelo governo de Minas, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aplicou uma multa no valor de R$ 250 milhões “por causar poluição hídrica; tornar áreas urbanas impróprias para ocupação humana; causar interrupção do abastecimento público de água; lançar resíduos em desacordo com as exigências legais; e provocar a mortandade de animais e a perda da biodiversidade ao longo do Rio Doce, resultando em risco à saúde humana”.

Na última segunda-feira (16), o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) informou que foi firmado um termo de compromisso preliminar com o Ministério Público Federal (MPF) e a mineradora Samarco para o pagamento de uma caução socioambiental de R$ 1 bilhão. O compromisso foi assinado em Belo Horizonte na sede do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais do Ministério Público (Nucam).

Sebastião Salgado sugere criação de fundo para recuperação do Rio Doce

O fotógrafo Sebastião Salgado sugeriu a criação de um fundo exclusivo para a recuperação do Rio Doce no Espírito Santo, durante reunião com o governador Paulo Hartung e o Ministério Público Estadual, nesta quarta-feira (18). O vice-presidente do Instituto Terra acredita que é possivel recuperar o rio, mas que não há como precisar quanto tempo isso pode levar.
Para o ambientalista, as multas estabelecidas não são suficientes para o projeto de recuperação, e que é essencial a criação de um fundo exclusivo.

“A multa que vai pro cofre público não volta para a região afetada, ela é usada para pagar as despesas e dívidas do estado. É por isso que eu insisto na criação de um fundo, que realmente compense o desastre ecológico da região”, disse Salgado.
Salgado, que cresceu às margens do Rio Doce, ainda sugere que fundo seja administrado pelo poder público e pelo setor privado, mas destaca a necessidade de um acompanhemento da sociedade.

“Espero realmente que essa proprosta seja efetivada e que o dinheiro seja realmente aplicado na região. Mas eu tenho muito medo que não seja”, disse.

Sobre a recuperação de nascentes, o ambientalista disse que pode demorar 20 anos. “É possível recuperar o Rio Doce. É um trabalho de muito longo prazo, nós temos um projeto técnico de recuperação de nascentes e nós podemos recupera-las, mas os problemas vão muito além das nascentes”, disse.

Salgado destacou a resposabilidade das empresas envolvidas em financiar o projeto de recuperação. “É obrigação da Vale, sócia do projeto da Samarco com a BHP e responsável pela barragem, arcar com os custos do projeto de recuperação das nascentes”, disse.

O governador Paulo Hartung afirmou que todos os esforços serão feitos para garantir a recuperação do Rio Doce.

“Precisamos de um plano para recuperar nosso rio. A proposta é criar um fundo específico para que o Rio Doce possa reviver. Temos que transformar esse desastre tão triste em uma boa política de investimento em recursos hídricos. Precisamos juntar forças”, disse Hartung.

Fonte: G1, GazetaOnline, Prefeitura de Vitória, Revista Exame e site da Samarco

  Todos sabemos que a instalação de indústrias e multinacionais nas cidades traz desenvolvimento, gera empregos e impostos, e impulsiona o potencial econômico do Estado. Entretanto, a exploração dos recursos naturais pelos setores da economia além de gerar todos esses benefícios, causa também um preço e muitas vezes ele é…

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